
“O céu só raramente faz nascer ao mesmo
tempo o homem que quer e o homem que pode“
Chateaubriand
Natal de 1970.
O menino vai-se chamar Zé, dizia o meu avô José, já bem alegre, em voz alta e de copo no ar.
-Tem de se chamar Carlos como o pai, respondia o meu progenitor também já alegre, perante a família em reunião natalícia. Eles eram amigos, mas zangavam-se frequentemente por culpa do álcool e das divergências clubistas. O caso ameaçava extremar-se quando a minha tia Lurdes que nunca teve muito jeito para a diplomacia disse:
- Zé Carlos, José do avô e Carlos do pai.
A ideia agradou aos dois que logo aproveitaram para encher novamente os copos e brindar à saúde do menino, porque na verdade o que eles queriam era brindar. O nome também pareceu bem ao resto da família. Menino, era o que eles desejavam, porque na realidade ninguém sabia o sexo do nascituro. Ao contrário do que se possa pensar, José Carlos é um nome formado por justaposição, não simplesmente um nome da moda da época.
“Este miúdo é muito esperto. Este miúdo pode ir longe. É muito inteligente.” Foram frases que eu quando era pequeno me habituei a ouvir. Na verdade eu desconfiava disso, sempre desconfiei, e acabei por nunca ter tido as mesmas esperanças que os outros depositavam em mim.
Primeira classe, Escola Primaria nº66 da Charneca do Lumiar. Estava feliz por estar na escola a aprender, tudo corria bem, até que um dia chegou a Aia.
Era a minha vez de ler a lição que tinha preparado em casa o texto era curto e fácil. Li-o várias vezes para ter a certeza que iria fazer boa figura. Queria impressionar a professora. Ela chamou-me para a sua secretaria e ordenou que eu lesse em voz alta a lição. “A aia fez a cama do seu amo...Li rapidamente, e olhei para ela à espera da sua plena aprovação pelo meu trabalho.
- Está mal - disse ela acenando com a cabeça.
-Está mal? Perguntei eu com a voz embargada numa mistura de tristeza e medo.
-Está mal, amanhã quero a mesma lição!
Assim eu ia ficar atrasado em relação aos melhores, pois este era o método de ensino da professora. Eu não compreendia, já tinha lido aquele texto perante vários adultos e todos me diziam que estava bem! A verdade é que, no máximo, eles tinham a quarta classe. A professora é que sabia. Eles deviam, com certeza, estar enganados. Voltei a estudar a lição e desta vez submeti a minha leitura a pessoas mais instruídas. O resultado foi o mesmo. Os vizinhos mais letrados do pátio liam a “A aia” da mesma forma que eu.
No dia seguinte, cheio de medo, voltei à escola sem a solução deste terrível problema.
Uma tristeza muito grande tinha desabado sobre mim. Eu ainda não sabia ler. Pelo menos tão bem como a professora. Contudo eu lia tão bem como as outras pessoas. O que de certa forma me servia de consolo. O momento que eu esperava nunca acontecer, aconteceu e fui chamado pela segunda vez à sua secretária.
Como um condenado à morte e perante o olhar de todos, eu segui pelo corredor entre as carteiras em direcção ao meu carrasco. “A aia fez a cama do seu amo” Li, já sem muita esperança de que estivesse a ler bem. Não me enganei. Logo a sua voz soou com aquela mesma frase que eu não queria ouvir.
-Está mal! Vais repetir a lição!
Outra vez mal? Pensei eu desesperado, não podia estar mal. Eu tinha estudado a lição e perguntado a toda a gente que sabia ler como se lia e estava mal.
Voltei para a minha carteira. O dia de amanhã não poderia chegar, eu não tinha solução para este problema, ninguém tinha. Só a caridade da professora me podia libertar desta amargura. Chorei a tarde toda, e desisti de estudar a lição nem perguntei a mais ninguém, o dia de amanhã não poderia chegar. Não compreendia como é que isto me estava a acontecer. Porque é que Deus me estava a castigar. Já estava atrasado duas lições, sentia-me muito envergonhado por isso. Eu já não gostava da escola, eu não queria voltar para a escola.
No dia seguinte voltei pelos mesmos passos e com o mesmo desanimo a caminhar pelo corredor e a sentar-me na secretária da Senhora professora.
-A aia fez a cama do seu amo...Voltei a olhar para ela na esperança de ser perdoado pelo meu pecado de não saber ler. Ela pegou no meu livro e virou uma página e disse:
-Estuda esta lição para amanhã.
Era magnífico, eu passei aquela lição. Sentia-me tão aliviado, mas nunca mais na minha vida pude ler em público tão bem como lia naquela altura.
Como se de um feitiço se tratasse, aquela professora, que enchia as mãos de reguadas aos alunos que faziam erros ortográficos nos ditados, que me proibia de emprestar as canetas de feltro aos colegas e os humilhava pondo-os de castigo virados para a parede durante horas, era considerada por mim uma boa pessoa, apesar de sempre ter sentido muito medo dela.
Durante aqueles dois anos a professora Ana foi uma bondosa senhora, até que eu me atrevi a questionar os seus métodos. Isso aconteceu na terceira classe quando mudamos de docente. A professora Ana foi substituída.
A professora Josefina era uma senhora muito bonita, na casa dos 50 anos que era muito meiga para os alunos. Não usava a palmatória, repreendia sempre com moderação sem magoar os meninos. Depressa esquecemos a professora Ana que ao que parece se tinha reformado, mas ao certo nunca soubemos. A nova professora estimulava os alunos e premiava os melhores.
Muitas vezes senti a sua mão passando pela minha cabeça dizendo palavras de incentivo. Essa mão era para mim como uma coroa de louros. Esta senhora sempre tão bem vestida e penteada, que cheirava sempre tão bem, gostava de passar a mão na cabeça dos meninos pobres. Talvez não gostasse, mas sabia que era preciso fazê-lo. Ela não castigava os maus, simplesmente premiava os melhores.
A escola nestes anos passou a ser uma coisa maravilhosa para mim, muito estimulante. Os fins-de-semana eram uma chatice e as férias nunca mais acabavam. Chorava desesperado sempre que tinha de faltar à escola por este ou aquele motivo.
Todos adorávamos a professora Josefina. Gostaria muito de um dia lhe poder agradecer, sei que lhe devo muito.
"Agora diz-me o que aprendeste
De tanto saltar muros e fronteiras
Olha para mim e vê como cresceste
Com a força bruta das trepadeiras"
Rui Veloso
(O meu engenho, a primeira invenção, o projector de laranjas, arma de grande precisão, todos copiaram a invenção e eu ria das laranjas. A marrada do carneiro. A chinchada. As longas caminhadas, os ninhos e os mochos.)
Sempre gostei de viver de acordo com as minhas emoções, isso fez de mim uma espécie de cata-vento de sensações, onde estivesse a maior emoção ali estava eu, consequentemente sempre cometi muitos erros.
Apesar de consciente das más escolhas que fazia, frequentemente escolhia mal. Como gostava de viver intensamente, sempre dormi pouco. Um natural short-sleeper como diagnosticou o médico um dia.
Eu sempre tentei dormir, mas os pensamentos não me deixavam sossegar, então levantava me e fazia coisas. Adormecia sempre por esgotamento, por já não ser capaz de me manter acordado. Nestas alturas eu tinha algumas coisas que gostava de fazer, escrever cartas de amor, mesmo que na altura na altura não tivesse a quem as enviar. Ler romances de amor, pesquisar na rádio, bons programas para gravar música em cassetes. Outras vezes saia de casa e aventurava-me pela noite a ver as suas cores e sentir os seus cheiros. Sair de casa durante a noite expôs-me a muitos perigos, mas felizmente consegui sair sempre deles sem muitos danos. Frequentemente ia para a escola sem ter dormido um único minuto. Com a escola eu possuía uma relação amor ódio. Por um lado seduzia-me porque me ensinava e sempre fui dotado de uma grande curiosidade sobre tudo o que me rodeava, mas por outro lado ela repelia porque era disciplina, assiduidade, constância e esforço. Muitas vezes me perguntei para que serve isto que estou a estudar? Bom, agora já sei para que servem a maior parte das coisas que me interrogavam nessa altura, mas na época essa sensação de estar a esforçar me para nada, era destrutiva, e isso desequilibrava a balança a favor da minha facção interna anti-escola. Por outro lado as tentações eram muitas. De repente todas as raparigas ao meu redor começaram a parecer-se com deusas, e a minha cabeça nem sempre ia comigo à escola. Eram muitas e estavam disponíveis, todas eram bonitas aos meus olhos e eu queria namorar com todas elas.
E assim em pleno 9º a minha encarregada de educação foi chamada ao conselho directivo da escola para falar com o director, devido a actos indecorosos perpetrados pelo seu filho e outra aluna menor, atrás das janelas do Conselho Directivo da Escola secundaria da Ameixoeira.
O professor de Francês, chamado por nós “Trois Cheveaux” por ser careca, tentava explicar à minha mãe incrédula, a situação.
- Veja minha senhora, eles são menores, a rapariga pode engravidar...
O professor “Trois Cheveaux” devia ter dons divinatórios...
Quando saímos da reunião eu esperava um belo raspanete, mas da boca da minha mãe saiu uma gargalhada e depois esta frase:
-Este gajo é parvo, se me chamasse para me dizer que o meu filho era maricas é que eu me preocupava.
Eu já sabia que ela tolerava o sexo antes dos 18 anos, porque quando eu nasci tinha ela 17, portanto é só fazer as contas. Não se deve pregar moralidade quando não se leva uma vida santa, dizia muitas vezes a minha avó que é analfabeta e transporta consigo muita sabedoria condensada em forma de provérbios. Creio que a minha mãe também deve ter ouvido este provérbio muitas vezes.
Eu peço desculpa ao senhor professor por não me lembrar do nome dele, e de certa forma é injusto porque ele dinamizou muito aquela escola com actividades extracurriculares, como peças de teatro, ranchos folclóricos, reparações dos estores e substituição dos vidros partidos. Actividades que nessa altura eram raras e de certa forma ainda hoje são. Por favor entendam “Trois Cheveaux” como um nome carinhoso. Era frequente a escola encher-se aos sábados para as actividades. Essa era a glória do professor de Francês que um dia até se atreveu a leccionar matemática durante a ausência do professor titular por motivos de doença. Era um homem muito dedicado a uma causa. O tipo que na altura era meu inimigo, que não queria que eu namorasse e ainda por cima tentava atiçar a minha própria mãe contra mim. Que nos obrigava a ir ao sábado para a escola reparar os vidros que nos próprios partíamos, hoje é um grande homem e um exemplo a seguir. Não, não foi ele que mudou, fui eu.
Uma dúvida sempre me assombrou o espírito a respeito dos professores de matemática, de ambos os sexos, eles invariavelmente adoeciam todos os anos lectivos por tempo indeterminado. Será que a matemática faz mal à saúde? Um ano lectivo com quatro professores diferentes entre largos espaços sem professor nenhum. Nunca tive a certeza, na dúvida decidi não arriscar. A matemática tinha de ser abandonada. Resta dizer que acabei por chumbar esse ano. Mas pode-se dizer que foi por amor.
-Temos aqui muito trabalho a fazer a respeito de assiduidade Sr. José Carlos, os atestados aparecem, mas o Sr. nunca me parece doente. Dizia a Sra. Directora de Turma do 11º ano, em que eu por mais atestados que arranjasse não conseguia justificar o excesso de faltas em duas disciplinas. E de facto não estava realmente doente fisicamente, eram dores da alma que me exauriam o ânimo de viver. O que resultou em mais dois chumbos para juntar aquele 9º ano. A professora Eduarda era uma professora fora do vulgar, dotada de um talento teatral. Lia sempre os textos e as poesias nas aulas de uma forma que nos deixava encantados. Com o seu método ela desenvolvia em nós o mesmo amor pela literatura que ela própria tinha. Quando saia das aulas ia sempre tentar ler o resto das obras. Além disso, a Professora Eduarda também parecia ter dons divinatórios. Acho que foram os romances que eu li ainda muito cedo que me incrustaram um romantismo doentio. Aquela colecção tão bem encadernada de autores do romantismo português das selecções, que a minha família tanto gostava de me ver ler eram a causa da minha desordem, a minha pobre mãe pensava que isso de ler me fazia bem, na verdade eu também achava, hoje sabemos que ambos estávamos enganados. Um adolescente mimado, irresponsável, egoísta que não percebia que jogava aos dados com o seu futuro. Todos se preocupavam com alguma coisa, Com as notas, com as borbulhas, com a reacção dos pais ou com o tamanho do pénis. Na verdade eu também tinha preocupações. Preocupava-me em arranjar mais namoradas. A vida era o minuto que passava, o minuto a seguir já era futurologia.
A enxertia é a união dos tecidos de duas plantas, geralmente de diferentes espécies, passando a formar uma planta com duas partes: o enxerto (garfo) e o porta-enxerto (cavalo). O garfo, cavaleiro ou enxerto é a parte de cima, que vai produzir os frutos da variedade desejada e o cavalo ou porta-enxerto é o sistema radicular, o qual tem como funções básicas o suporte da planta, fornecimento de água e nutrientes e a adaptação da planta às condições do solo, clima e doenças. O seu desenvolvimento é rápido, o que facilita a reconstituição de um plantio perdido por pragas. A enxertia pode ser feita por vários métodos, sendo os mais comuns a encostia, a borbulhia, a garfagem com suas variações,conforme a planta, pois cada espécie se adapta a um tipo. Tem inúmeras vantagens como o consílio de características várias numa só planta. Fonte:Wikipédia
Uma ameixeira já envelhecida, mas que dava uns frutos fabulosos, umas grandes ameixas amarelas, sumarentas e muito doces, mas que já estava em fim de vida.
Era esta ameixeira o local preferido dum casal de melros que nos visitaram todos os dias de manha e ao anoitecer. Parece que o melro só tem uma parceira para toda a vida. Um abrunheiro que havia nascido espontaneamente noutro local era uma arvore viçosa de tronco espesso e ramagens fortes, mas que curiosamente dava uns frutos muito ácidos e pequenos, pouco maiores que o próprio caroço.
O meu sogro, um dia numa daquelas ocasiões em que nos reuníamos para semear batatas, chegou perto de mim e declarou.
-Esta árvore já está velha, é pena. É preciso fazer enxertia com aquele abrunheiro ali.
Na altura o meu conhecimento por estes assuntos era escasso, sabia a definição no dicionário de enxertia e pouco mais, juntar duas especies diferentes na mesma árvore deixou-me intrigado. O meu sogro tratou de me fazer entender que ele próprio era um sábio e experimentado enxertador, e da tradição que havia de verdadeiros magos enxertadores da sua terra, especializados em videiras e cujos préstimos eram requisitados em toda a região do Douro. Pusemos mãos à obra. Um rebento recente da ameixeira velha, foi preparado para ser embutido com a técnica do garfo. O rebento seria o garfo e caule viçoso do abrunheiro seria cavalo. Com o tempo fui observando aquele abrunheiro-ameixoeira que crescia em frente á janela do meu quarto. Esperava pacientemente que chegasse o dia de dar frutos. Houve alturas em que suspeitei que ela não viesse nunca a dar frutos. Hoje aquela árvore possui muita saúde e dá uns frutos grandes com um sabor pouco comum. Uma especialidade. O meu sogro provou que se mantinha viva a tradição dos bons enxertadores do Douro.
A técnica da enxertia. Reflectindo sobre este do génio humano, concluí que também as pessoas fazem enxertia entre elas. A convivência deixa-as semelhantes. Com o tempo e o amor, as pessoas também vão assimilando as características umas das outras. Os valores, as virtudes, os vícios, tudo se reproduz em função de uma troca entre os indivíduos. Quando olho para traz na minha vida penso nas enxertias que fiz com aqueles que me amaram e a quem eu amei. Entendam que quero dizer que todas estas pessoas aqui referidas, foram pessoas com quem eu fui enxertando a minha jovem árvore. Tornamo-nos aquilo que amamos. Hoje a minha árvore dá melhores frutos.